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Livro Sabedoria de Salomão.

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INTRODUÇÃO

Título, autor, data. Este livro foi intitulado, nos tempos antigos, A Sabedoria de Salomão, porque os caps. 7-9 dão a palavra a este rei, que a tradição judaica considerava "o sábio" por excelência. Trata-se, entretanto, de um artifício literário em voga na época, destinado a respaldar, com uma autoridade unanimemente reconhecida, um pensamento novo. Na realidade, o livro revela parentesco com os escritos do judaísmo alexandrino e foi redigido em grego por um autor que permaneceu no anonimato.

A data de seu aparecimento é incerta. Vários indícios, tirados principalmente do vocabulário e de uma alusão às reivindicações de igualdade civil dos judeus do Egito (19,16), levam-nos a não ir além dos anos 50 a.C. e até mesmo a aceitar data mais próxima, já no período romano, a partir da tomada de Alexandria por Augusto (30 a.C.). Parece evidente que o livro não foi escrito de uma só vez. Sua composição se escalona ao longo de vários anos, e a terceira parte apresenta numerosas semelhanças com a Vida de Moisés, de Fílon de Alexandria (nascido pelo ano 20 a.C.). Mesmo na hipótese de ambos utilizarem independentemente um mesmo midrash, não parece que estejam temporalmente muito afastados um do outro.

Unidade de autor e de composição. Logo numa primeira leitura, o Livro da Sabedoria impressiona pela diversidade de estilos e de temas. A imitação da poesia bíblica vai, pouco a pouco, cedendo lugar - principalmente a partir de 11,4 - a um estilo periódico que tende à prosa ritmada. Igualmente se observa que os caps. 6-10 insistem no papel criador e providencial da Sabedoria, que, por sinal, não volta mais a ser mencionada. Esta diversidade levou os críticos a postular vários autores para este livro. Entre as hipóteses aventadas, assinalamos duas: 

a) os caps. 1-5 teriam sido escritos em hebraico e traduzidos para o grego pelo autor dos capítulos seguintes; 

b) toda a obra teria sido escrita em grego, mas os capítulos 11-19 seriam de outro autor, completamente distinto daquele dos capítulos precedentes. Hoje se admite, cada vez mais, o reconhecimento da unidade de autor, porque o conjunto do livro revela uma mesma cultura e uma mesma personalidade literária. É importante assinalar, particularmente, o recurso a dois procedimentos:

a) O contraste ou a comparação: o destino imortal dos justos, por exemplo, é colocado em oposição à vida estéril dos ímpios; a esterilidade virtuosa, à fecundidade ímpia; a sorte dos israelitas, à dos egípcios.

b) O desenvolvimento progressivo das idéias: o autor procede por toques sucessivos. O tema da morte, por exemplo, é abordado logo no começo do livro (1,11-13.16) para ser retomado e desenvolvido em diversas oportunidades ao longo do texto (2,20.24; 3,2-3; 4,7-14 etc.). O autor explora a riqueza do tema para evocar ora a morte física, ora a morte espiritual ou as duas em conjunto; e seu pensamento, aqui como em outros lugares, parece impedir qualquer iniciativa de redução sistemática.

Por outro lado, no plano formal, observa-se uma preocupação constante em utilizar um vocabulário rebuscado, inclinado a neologismos e ao emprego constante de numerosas figuras de construção ou de retórica. Destacam-se também o sentido inusitado atribuído a diversos termos e a monótona repetição das mesmas partículas gregas de ligação ("e", "mas", "pois", "é que").

Estrutura e conteúdo. O Livro da Sabedoria pode ser dividido em três grandes seções, que são o reflexo de situações e preocupações diferentes:

1. O destino humano segundo Deus (1-5). Esta seção opõe o destino dos justos ao dos ímpios que os perseguem. Sua finalidade é fortalecer a fé dos judeus: as provações que sofrem preparam sua glorificação no além. O autor os exorta a praticar a justiça, que é imortal (1,1-15). É verdade que os ímpios, transviados pelo materialismo, perseguem o justo, que para eles se tornou insuportável (1,16-2,20). Todavia, agindo assim, eles ignoram que Deus reservou para as almas puras a imortalidade, ao passo que os adversários da Sabedoria receberão o devido castigo (2,21-3,12). Uma mulher fecunda, mas de comportamento ímpio, só merece censura; ao passo que a mulher estéril, mas virtuosa, é digna de elogio (3,13-4,6). Da mesma forma, a longevidade dos ímpios, condenada pela morte prematura do justo, não tem nenhuma significação positiva nem os impedirá de ser confundidos quando forem julgados e se encontrarem face a face com o justo, glorificado por Deus , e vãos serão os seus remorsos (4,7-5,14). Quanto aos justos, viverão para sempre e Deus os protegerá no dia do juízo (5,15-23).

2. Elogio à Sabedoria (6,1-11,3). Tal elogio é posto na boca de Salomão . Contudo o rei não é citado. Aliás, o Livro da Sabedoria evita praticamente todo nome próprio. Há apenas duas exceções: Pentápolis (10,6) e mar Vermelho (10,18; 19,7). Salomão dirige-se aos demais reis para convidá-los a se abrirem aos ensinamentos da Sabedoria israelita. Parece que o autor tem em mira os soberanos não-judeus e, através deles, os meios pagãos cultos.
Logo após este apelo aos príncipes (6,1-11), Salomão apresenta a Sabedoria como uma realidade misteriosa, que pede para ser conhecida e praticada (6,12-21). Anuncia, em seguida, uma revelação sobre sua natureza e origem (6,22-25). Embora de condição humana, ele foi ouvido em sua oração e a Sabedoria lhe trouxe todos os bens (7,1-14). Depois de ter invocado a Deus , fonte de todo o conhecimento (7,15-21), ele descreve progressivamente as propriedades e a natureza da Sabedoria (7,22-8,1). Ela é, para ele, como uma esposa ideal, junto à qual dá a entender que vive (8,2-16).

Mas tal intimidade só se consegue por um dom de Deus (8,17-21). Por isso, Salomão dirige uma nova oração para que a Sabedoria o assista no cargo de soberano e o instrua na vontade divina (9,1-12). Somente ela conhece tal vontade, podendo, por isso, salvar os homens (9,13-18). Desde as origens até a saída do Egito , através de todos os episódios narrados no Gênesis, ela se revela como a mestra da história (10,1-11,3).

3. Meditação sobre o Êxodo (11,4-19,22). A última seção do livro é mais longa e, sobretudo, mais complexa do que as precedentes. Consiste principalmente numa série de comparações sobre a sorte dos israelitas e dos egípcios a partir da narrativa das pragas do Êxodo , mas essa sucessão é freqüentemente interrompida por digressões e por uma polêmica contra a idolatria. A dureza dos contrastes e a severidade do tom levam a pensar que o autor, ao defender os valores do judaísmo, procura colocar de sobreaviso todos os que ameaçam a sua comunidade. Ao começar o assunto, expõe o princípio normativo: o instrumento do qual Deus se serve para castigar seus adversários redunda em benefício para Israel (11,5). Assim, a água que castiga os egípcios (alusão ao Nilo mudado em sangue) estanca a sede dos israelitas no deserto (11,4-14). Em seguida, o autor desenvolve uma polêmica contra o culto aos animais, enfatizando como Deus sempre castiga com moderação, no propósito de levar ao arrependimento (11,15-12,1). Nesta perspectiva, interpreta-se a função das vespas antes do extermínio dos cananeus (12,2-14). De todo modo, Deus julga com soberana imparcialidade e sua moderação deve servir de norma para os israelitas (12,15-22). A polêmica contra o culto aos animais prossegue com uma ponta de ironia (12, 13-27). O autor distingue, então, duas formas de idolatria: a divinização dos elementos da natureza (13,1-9) e o culto prestado a obras humanas (13,10-14,11). A segunda foi introduzida insidiosamente (14,12-21) e causou completa perversão da vida (14,22-31). Se Israel, por sua fé, foi preservado do perigo da idolatria, todos os demais povos caíram nela, como o oleiro que molda um deus de argila (15,1-19). Aqui o autor retoma o fio de suas comparações e desenvolve sucessivamente seis: o milagre das cordonizes e a invasão das rãs (16,1-4); a serpente de bronze que cura os hebreus, e os animais mortíferos lançados contra os egípcios (16,5-14); o maná e o granizo (16,15-29); as trevas e a coluna de fogo (17,1-18,4); a morte dos primogênitos do Egito e a libertação pascal (18,5-25); finalmente, o afogamento dos egípcios nas águas do mar Vermelho e a livre passagem de Israel por elas (19,1-12). Os egípcios foram castigados por se terem mostrado piores em hospitalidade que os habitantes de Sodoma (19,13-17). Pela última vez, o autor volta a falar dos milagres do Êxodo para relacioná-los com uma certa teoria sobre os elementos da natureza (19,18-21). O livro termina com uma breve conclusão em forma de doxologia (19,22).

Influências. O autor do Livro da Sabedoria é um poeta e um mestre espiritual que pretende compor uma obra pessoal, original. Mesmo recorrendo a numerosas fontes, evita reproduzi-las tais como são, integrando-as discretamente em seu trabalho. É assim que procede com relação ao Antigo Testamento . Com efeito, são pouco numerosas as citações extraídas dos textos bíblicos anteriores. Contudo, sua obra é alimentada por um conhecimento e uma meditação profundos de tais textos (particularmente Gênesis , Êxodo , Isaías , Provérbios, Sirácida), que o autor parece ter lido na versão grega da Septuaginta. Ainda se pode distinguir, na última parte, uma influência inegável do midrash - espécie de comentário judaico dos textos bíblicos que dá lugar a amplificações legendárias.

A mesma observação vale para a literatura e a cultura helenísticas. O autor recorre livremente a seus conhecimentos em matéria de poesia, retórica, ciências e, principalmente, de filosofia grega. Excepcionalmente, é possível distinguir citações quase literais de Homero e de Platão, ou referências bastante precisas a certa explicação científica ou teoria filosófica. No mais das vezes, trata-se apenas de alusões ou reminiscências.

O fato de o autor ter-se inspirado ao mesmo tempo em escritos bíblicos anteriores e em escritos gregos não é de causar surpresa. Esse procedimento é característico dos meios judeus alexandrinos. Os temas e concepções bíblicas constituem a base de toda reflexão teológica, mas são examinados, traduzidos, desenvolvidos e, às vezes, adulterados, pelo recurso a noções gregas. É preciso recordar que o autor se dirige, de um lado, a leitores judeus que pouco ou nada sabem do hebraico e que estão, como ele, impregnados de cultura helenística; por outro, dirige-se a leitores gregos, a quem deseja convencer da absoluta superioridade da sabedoria judaica. Tanto num caso como noutro, recorre a noções gregas para tornar mais acessível aos leitores a herança particular de Israel. Obedece, portanto, menos ao cuidado de inovar ou de anexar elementos colhidos de outra civilização, do que à vontade de ser, de maneira eficaz, fiel testemunha da tradição judaica. Note-se sua condenação muito clara de toda forma de idolatria e de filosofia materialista, ou a sua profunda oposição ao determinismo astral, bem como aos mistérios cultuais, principalmente dionisíacos.

Doutrina. Este livro enriquece a literatura sapiencial com novos esclarecimentos acerca de dois pontos importantes: a imortalidade da alma dos justos e a personificação da Sabedoria.

1. Imortalidade dos justos. O autor se debate com o problema do justo que morre sem receber recompensa alguma. Oferece uma resposta às questões angustiantes de Jó , ensinando que as almas virtuosas perseguidas sobre a terra gozam de tranqüilidade perfeita junto de Deus e que, no dia da Visita ou do Juízo, serão recompensadas (2,22; 3,1-9; 4,7-14; 5,15-23). Em sua maneira própria de insistir sobre a prioridade e o destino imortal da alma , o autor deixa transparecer inegáveis influências gregas. Todavia, ele não partilha do dualismo platônico: o homem permanece um ser composto de alma e corpo, e a doutrina da ressurreição corporal, afirmada explicitamente em Dn 12,2-3 e 2Mc 7,9 parece bastante presente em alguns trechos (cf. especialmente 3,7 e 5,15-16). Ele resume em duas palavras tipicamente gregas a idéia de uma recompensa futura dos justos: "imortalidade" (1,15; 3,4; 4,1; 8,17; 15,3) e "incorruptibilidade" (2,23; 5,18-19). O autor quer fazer os leitores compreenderem que a vida dos justos não acaba com a morte física, mas se prolonga eterna e gloriosamente junto a Deus . Ao contrário, por sua conduta, os ímpios renunciam desde agora à imortalidade e de certa forma já estão mortos. Para o autor, a imortalidade não é uma noção abstrata aplicada indistintamente a todos; ela se refere à alma dos justos.

2. Personificação da Sabedoria. Personificando a Sabedoria, o autor retoma e prolonga o texto de Pr 1-9. Todavia, ele acentua a atividade criadora da Sabedoria (7,12.22; 8,5-6) e sua função cósmica (7,24; 8,1). Para os gregos, a sabedoria era principalmente um meio de se chegar ao conhecimento e à contemplação do divino. Para o autor, ela é a Revelação divina, é quem desvela a vontade e as intenções de Deus (9,13-17). Ela partilha da vida de Deus e está associada a todas as suas obras (8,3-4). Governa o mundo com bondade (8,1). Reside particularmente nos justos, na alma dos quais permanece, transformando-os em amigos de Deus (1,4; 7,27). Finalmente, ela é a fonte de toda ciência e de todo conhecimento (7,16-21). Tal personificação da Sabedoria levanta, porém, uma questão delicada: trata-se de um procedimento literário, mais exatamente poético, ou o autor efetivamente considera a Sabedoria como uma realidade intermediária entre Deus e o mundo, ou até mesmo uma pessoa divina? O texto não permite nenhuma conclusão.

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